domingo, 10 de novembro de 2013

O que dizer a alguém que outrora nos conheceu, e que nesta altura não tem qualquer memória nossa?

As respostas que me deram não foram reconfortantes; "diga que está de passagem", "diga que veio só dar os bons dias a todos".

O que não me disseram era o que diria se essa pessoa soubesse que nos conhecia, mas não sabia de onde.

O coração torna-se do tamanho de uma ervilha, as mãos tremem que nem varas verdes, a respiração torna-se ofegante, e as lágrimas quase que se jogam dos olhos cá para fora. É duro. Parece que todas as lembranças foram deitadas ao lixo, mas não foram. Apenas por razões desconhecidas, a mente atirou para longe as memórias de tudo e todos, e limita essa pessoa a uma convivência controlada e observada por desconhecidos que dizem que se a pessoa não se lembrar, não podemos dizer-lhes quem somos realmente, correndo o risco de ela se assustar a levar a surtos e crises de ansiedade, muitas vezes difíceis de explicar, e desaguando em crises violentas.

Como é que é suposto não dizermos a essas pessoas que outrora foram tão importantes para nós, partilhar momentos, brincadeiras, risos? Gostaria de lhe dizer quem sou na realidade, o que ela já fez por mim... Até a saudade que tenho dos cozinhados dela.

Não é brincadeira. Hoje não foi um dia fácil, pareci que perdi não uma, mas duas pessoas no mesmo dia.

Saí derrotada nesta batalha com a vida.
O Alzheimer é uma doença de merda. É tão merdosa como o cancro. Rouba-nos tanto, em tão pouco tempo que nos dá vontade de gritar "Fodasse, Karma estás a exagerar um bocado nessa coisa do que What goes around, comes around ".

Quem me dera que te lembrasses de quem nós somos. Ainda não partiste e eu já tenho saudades.

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