Acordei a meio da noite.
Num turbilhão de pensamentos.
Como se os pensamentos fossem enormes pedras da calçada que me fizessem tropeçar a cada passo que dou.
"Já passou". Foi isto que tentei convencer-me ao longo dos anos.
Já passou, não penso mais nisto. Não sinto mais isto.
Não sinto aquilo.
E minto ao meu inconsciente. E a todos.
De que já não sinto toda e qualquer por ti. Que já não passo noites acordadas a pensar em ti. Que o meu não estômago se revolve quando oiço a tua voz.
Como se tratasse de umas folhas de papel riscadas pela tinta da esferográfica, coladas sob o pisa papéis que estava ali, em cima da secretária.
Mentira.
Minto a ti, a mim e a eles. Mas minto a mim.
Porque antes da opinião de todos os outros, importa aquilo que eu sinto e o que penso.
Não te amo. Mas ainda gosto de ti. E da maneira fácil com que a tua vontade me faz mover.
Não passo todas as noites a pensar em ti, apenas algumas.
Não me revolves o estômago, mas ainda me fazes sentir um nó na garganta.
Amor não é dizer "Amo-te", e tão pouco é "Amo-o, sim.".
Às vezes o amor é isto. É pensar no assunto, causar-nos algum incómodo. Uma comichão, não permanente, mas daquelas que vai e vem. Apenas quando nos lembramos.
Como já vivo nisto à tanto tempo, tento desesperadamente arrancar Este Sentimento de dentro, tanto porque já passou, porque não vai voltar a acontecer, e porque tu simplesmente viveste através disso.
Inflamaste algo a que muitos chamam Amor, e que eu outrora chamei também. Agora, e apenas como me sinto agora chamo tormento. Que insiste em não passar.
Já me importei mais com o que os outros pensam, nomeadamente pessoas que dão o seu sermão de Santo António aos Peixes, mas que a moral é algo que não as acompanha com certeza.
O que me importa neste momento é retirar isto de mim, não desesperadamente.
Tranquilamente, como cada passo que aprendi a dar em criança.
Quero recuperar o meu coração, o meu amor e o meu afecto outra vez.
Para que um dia mais tarde o possa dar a outra pessoa.
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